“SÍNDROME NAVICULAR”
“Um problema que cada vez mais assusta as pessoas ligadas ao cavalo atleta.”
Síndrome Navicular, Síndrome Podotroclear, Doença do Navicular, Dor Digital Palmar ou “Dor de Talão” são nomes dados ao conjunto de alterações degenerativas que envolvem o aparelho navicular (podotroclear) do cavalo, e são responsáveis por cerca de um terço de todas as formas de claudicação (manqueira) crônica dos cavalos.
É um processo crônico envolvendo na grande maioria das vezes os membros anteriores dos cavalos. É caracterizado pela dor com origem no osso sesamóide distal (osso navicular) e/ou nas suas estruturas relacionadas, incluindo ligamentos, a bursa do navicular e o tendão flexor digital profundo (TFDP), o que proporciona a uma grande variedade de manifestações clínicas.
Pode ocorrer em cavalos com diversos tipos de conformação de membros. É uma condição freqüente em cavalos Quartos de Milha, Appaloosas e Paint Horses, que tendem a ter dígitos (porção do membro abaixo do boleto) estreitos, cubóides, tendendo a verticalização, e pequenos em relação ao seu peso corporal. É comum também em cavalos Puro Sangue Inglês que frequentemente apresentam cascos rasos, com talões baixos e colapsados, geralmente associados a desequilíbrio dorso-palmar do dígito. Figuras 1 e 2
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Figura 1: Eixo podofalangeano. Desequilíbrio dorso-palmar acentuado, condição também denominada de quebra caudal de eixo. |
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Figura 2: Casco Anterior Esquerdo - Desequilíbrio médio-lateral. A altura do talão lateral é de 6,20 cm, enquanto que a do talão medial é de 6,62 cm. |
Cavalos que realizam esportes de grande impacto nos membros anteriores como apartação, rédeas, tambor e baliza, laço ou salto apresentam grandes riscos de desenvolver o processo.
Considerações Anatômicas
O aparelho navicular (podotroclear) é constituído pelo osso navicular, seus ligamentos colaterais (ligamento suspensor do navicular), pelo ligamento sesamoídeo ímpar distal, pela bursa do navicular e pelo ligamento anular digital distal. O osso navicular se articula com as falanges média e distal, proporcionado um ângulo constante de inserção e mantendo a atividade mecânica do TFDP. Figuras 3 e 4
Figura 3 :
A - Corte anatômico sagital do dígito.
B – Detalhe do aparelho podotroclear.
1 – Primeira Falange;
2 – Segunda Falange;
3 – Terceira Falange;
4 – Osso Navicular;
5 – Articulação Interfalangeana Proximal;
6 – Articulação Interfalangeana Distal;
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7 – Ligamento Sesamoídeo Colateral;
8 – Ligamento Sesamoídeo Ímpar Distal;
9 – Recesso Proximal da Articulação Interfalangeana Distal;
15 – Sola do Casco. |
10 – Bursa do Navicular;
11 – Tendão Flexor Digital Profundo (TFDP);
12 – Coxim Digital;
13 – Parede do Casco;
14 – Ranilha; |
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Figura 4: Imagem de ressonância magnética sagital das estruturas normais do aparelho podotroclear.
2 – Segunda Falange;
3 – Terceira Falange;
4 – Osso Navicular;
6 – Articulação Interfalangeana Distal;
7 – Ligamento Sesamoídeo Colateral;
8 – Ligamento Sesamoídeo Ímpar Distal;
9 – Recesso Proximal da Articulação Interfalangeana Distal;
10 – Bursa do Navicular;
11 – Tendão Flexor Digital Profundo (TFDP);
12 – Coxim Digital. |
Etiopatogenia (Origem do problema)
A causa da Síndrome Navicular ainda permanece desconhecida. Historicamente, existem muitas teorias que tentam explicar o desenvolvimento dessa síndrome. Um grupo de pesquisadores defende a hipótese de uma etiologia vascular, e outro defende a hipótese de a síndrome navicular ter sua origem em alterações biomecânicas. Já um terceiro grupo defende apresenta uma teoria mais recente que propõe que a Síndrome Navicular seja decorrente de remodelamento ósseo, causado por estresses excessivos aplicados sobre o aparelho podotroclear.
Independentemente da teoria, sabe-se que quartelas muito retas e tendendo a verticalização exacerbam a concussão na região dos talões. Além disso, os cavalos que apresentam a conformação pinças longas-talões escorridos, caracterizados por talões fracos e colapsados, apresentam uma capacidade inferior de dissipar forças concussivas em relação aos cavalos de cascos normais.
Exame Clínico
Os primeiros sinais clínicos são geralmente observados em cavalos com idade média de 7 a 9 anos, apesar de a doença ocasionalmente ocorrer em animais mais jovens. A maioria dos cavalos com Síndrome Navicular apresenta histórico de queda de desempenho progressiva, encurtamento do passo, ou claudicação intermitente de membros anteriores, que geralmente é acentuada em piso duro. Ocasionalmente, o cavalo pode apresentar claudicação aguda de membro anterior, moderada ou severa, e geralmente unilateral.
Entre os exames complementares rotineiramente realizados destacam-se os testes da pinça de casco (Figura 5) e os de flexão e extensão digital (Figura 6). Porém, a resposta dos animais frente a esses testes é variável e esta relacionada à localização estrutural do processo degenerativo.
As anestesias perineurais são métodos eficazes para a determinação da claudicação relacionada à região palmar do casco, mas são procedimentos pouco específicos quanto à determinação da natureza da estrutura envolvida no processo doloroso. Esta técnica consiste na aplicação de um anestésico local, ao redor dos nervos responsáveis pela sensibilidade dos membros.
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| Outros procedimentos anestésicos diagnósticos mais específicos incluem a anestesia intra-articular interfalangeana distal (aplicação de anestésico local no interior da articulação interfalangeana distal), e a anestesia da bursa do navicular (aplicação de anestésico local no interior da bursa), que apesar de ser a mais difícil de realizar, é a técnica anestésica de maior acurácia no diagnóstico da Síndrome Navicular. |
Figura 5: Teste da Pinça de Casco. Diversas posições objetivando pressionar as estruturas do aparelho podotroclear e acentuar uma possível resposta dolorosa |
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Figura 6: Teste de Extensão Digital. Um membro é colocado sobre uma estrutura angulada visando à extensão das estruturas do dígito. O membro contralateral é mantido em suspensão por cerca de 1 minuto. Em seguida o animal é trotado e um aumento da claudicação avaliado. |
Diagnóstico por Imagem
O exame radiográfico do digito é um dos meios mais eficazes de se determinar possíveis lesões relacionadas à Síndrome Navicular. Para um exame detalhado das estruturas relacionadas são necessárias diversas posições radiográficas, a fim de se obter imagens adequadas das diversas faces do osso navicular.
As alterações radiográficas mais frequentemente relacionadas à doença do navicular incluem: perda da distinção córtico-medular ou esclerose (aumento da densidade do canal medular do osso), presença de cistos ósseos, remodelamento dos bordos proximal e distal do osso navicular (formação de entesiófitos), lise do córtex flexor (superfície em contato com o TFDP); rasamento ou erosão da crista central do osso; e, mais controversamente, a associação da doença ao aumento de tamanho e alteração da forma dos forames do bordo distal (fossas sinoviais) que são pequenas aberturas na superfície óssea. Figuras 7, 8 e 9.
Por outro lado, a ausência de alterações radiográficas não exclui o diagnóstico de síndrome do navicular. Muitos casos estão relacionados às lesões de tecidos moles da bursa, dos tendões ou dos ligamentos de suporte. Estas lesões não são visíveis no exame radiográfico, e muitas vezes requerem a realização de um exame ultra-sonográfico para o seu diagnóstico.
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Figura 7: Posições radiográficas dorsoproximal-palmarodistal oblíqua, ilustrando algumas diferenças entre um animal normal e um animal acometido pela síndrome navicular. |
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Figura 8: Posições radiográficas palmaroproximal-palmarodistal oblíqua, também conhecida com “skyline”, ilustrando algumas diferenças entre um animal normal e um animal acometido pela síndrome navicular. |
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Figura 9: Posições radiográficas látero-medial, ilustrando a diferença entre um animal normal e um animal acometido pela síndrome navicular.
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A ultra-sonografia proporciona imagens de tecidos moles, e representa uma técnica complementar excelente à radiologia nos diagnósticos eqüinos. No dígito, é possível realizar uma avaliação parcial das estruturas presentes no interior do casco. É possível observar lesões no ligamento sesamoídeo ímpar distal e no TFDP, e também permite avaliar o contorno do osso navicular e a qualidade e quantidade de líquido presente no interior da bursa.
Outros métodos extremamente eficazes no diagnóstico da Síndrome Navicular e que, muitas vezes só através deles é possível de se obter um diagnóstico definitivo, incluem a Cintilografia Nuclear (Figura 10), a Ressonância Magnética (Figura 11) e a Tomografia Computadorizada, porém eles ainda não estão disponíveis no Brasil para o uso em eqüinos.
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Figura 10: Cintilografia nuclear óssea dos membros anteriores de um eqüino. A seta indica maior atividade óssea nesta região.
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Figura 11: Imagem de ressonância magnética do aparelho podotroclear.
A – Corte sagital.
B – Corte Transversal. Há uma área focal de alto sinal no córtex ósseo palmar do osso navicular (seta). Este cavalo apresentava evidências clínicas, radiográficas e ultra-sonográficas de Síndrome Navicular.
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Dra. Maria Julia Andrade Moreira – Médica Veterinária – Atua na área de Medicina Esportiva Eqüina em todo o Brasil. Contato: (14) 9708-9669 ou (14) 9112-4916. Na internet: http://www.mjm.vet.br ou por E-mail: contato@mjm.vet.br |
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